domingo, 13 de junho de 2010

SEGUE O TEU DESTINO


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios


Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses


Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
Ela nada pode dizer-te
A resposta
Está além dos deuses



Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.



Ricardo Reis








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Lisboa,13 Janeiro 1935






...A origem dos meus heterónimos, é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais própriamente, um histero-neurastênico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia, que a histeria, própriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos, está na minha tendência mental, está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para outros - mentalizaram-se em mim, quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com os outros, fazem explosão para dentro e vivo-os a sós comigo. Se eu fosse mulher ---na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histéricamente histérico de mim de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais, assim, tudo acaba em silêncio e poesia...





Excerto da carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro
















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sexta-feira, 11 de junho de 2010

HISTÓRIA

O que mais me enfada nas viagens que faço de taxi, são os
silêncios alongados e perturbadores que me desajeitam os
movimentos e os tornam completamente descoordenados,
a fim de que se ouça qualquer som. Pode ser a minha mala
a abrir e a fechar, a agenda que tiro e retiro, o kleenex que
finge que limpa, enfim, qualquer coisa serve.
Mas nem sempre existe a necessidade de improvisar esta
mímica, há taxistas que são exímios acolhedores.
Tal foi o caso do Sr Manuel, há dias, no percurso Rossio-Oriente.
A propósito de horários e de comboios, a conversa foi parar
à Serra da Estrela e soubemos que éramos vizinhos, das
Beiras. Ele Beira Alta e eu, Beira Baixa.
Surgiu-lhe então a brilhante e inevitável pergunta:
-Sabe quem foi Viriato???
Claro que eu sabia muito bem quem tinha sido Viriato, conhecia-o desde a minha 4ª classe e respondi de imediato que sim.
Muito ao jeito da D. Antónia,( a minha professora da instrução primária) o Sr Manuel, não satisfeito, perguntou de novo:
-Então diga lá quem foi???
Senti o mesmo brio de quando tinha 9 anos e sabia a História de Portugal na ponta da língua.
E depois, Viriato tinha sido o chefe dos Lusitanos, que nascera nos Montes Hermínios, era o nosso herói das Beiras, quem não saberia?
Crescia-lhe algum orgulho no tom como ia fazendo as perguntas e eu soltava as respostas, mas fazia-o como se houvesse uma gradação para a dificuldade.
-E então onde é que nasceu Viriato??? perguntou muito sério, olhando-me pelo retrovisor.
Eu achei que já lhe havia respondido, mas, memórias relembradas, retomei o discurso histórico.
Viriato nasceu no ano 180 a C nos Montes Hermínios, Serra da Estrela, Beira Baixa, era meu conterrâneo, lutou contra os Romanos, foi morto à traição por 3 dos seus homens, que se venderam ao general Romano, etc, etc... contei a história toda que sabia e ainda lhe falei de Sertório, outro chefe Lusitano notável, que o seguiu nas lutas contra os Romanos...
Mas o Sr Manuel contrapôs:
- Nã-nã-nã-nã, Viriato era da minha terra, Viseu. Não conhece o monumento a Viriato???
Há quarenta e tal anos que eu conhecia Viriato, nunca tal ouvira dizer...Sempre fora boa aluna a História, no meu 12º ano continuava a tirar 19 nos testes e este taxista, viseense de raça, não só me estava a tirar os créditos, como me estava a fazer perder referências adquiridas, porque eu sempre pensei ou sonhei, sei lá...que Viriato era da Cova da Beira, porque não?
De Viseu só conhecia o Museu Grão Vasco e já era muito importante.
O Sr Manuel quis então contar das querelas que havia entre localidades vizinhas para se apropriarem da naturalidade do famoso pastor e guerreiro Lusitano, mas o terminus da viagem roubou-lhe o final heróico da história.
O curioso desta viagem, é que ao contrário de todas as outras que tenho feito, esta não acabou aqui. Criou em mim um tal desassossego, que me obrigou a vasculhar tudo quanto falasse dos primórdios de Portugal, ( Lusitânia ) para tentar perceber onde teria nascido o dito chefe guerreiro.
E desde a Cova da Beira que por brincadeira alvitrei, Castelo Branco, Alvega, Cabanas de Viseu, Viseu e Loriga que o reclama a pés firmes, Espanha Zamora, onde existe uma praça e uma estátua em seu nome, tudo são probabilidades. Ao certo ao certo, Sr Manuel, ninguém sabe.
Mas gabo-lhe esse seu olhar patriótico que lhe permite enaltecer a sua terra de origem e continue a dar lições de História de Portugal, sobretudo aos Lisboetas, porque eu não acredito que eles saibam quem foi o nosso ilustre conterrâneo.


maria

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domingo, 6 de junho de 2010

JOANA




Sabes Joana,
A morte não é preta nem é branca. A morte é da cor da nossa alma. Pode ser azul ou rosa, como essa flor que apertas contra o peito e teimas em guardar!
Pode não ter cor, como essas lágrimas que te molham o colo e te turvam o olhar. Mas, pode também, ser a cor de todas as cores, aquela que ainda não vemos, mas que é luz de fim de túnel e morada de todos nós.
Quando eu era criança, havia lá em casa, uma foto a preto e branco, com uma urna muito pequena, toda branca, em posição inclinada para se ver o interior. Talvez desejassem passar rápido aquela folha do álbum, mas para mim, era paragem obrigatória e pergunta com resposta. O meu Pai costumava responder que era um anjinho que tinha ido para o céu. Aquela era a morte que eu conhecia: Branquinha, vestida de anjo subido ao céu. E assim foi, durante muitos anos; Não que ela sorrateiramente e de uma forma" cruel" não nos fosse visitando, mas porque a nós, crianças, nos protegiam do lado mais acutilante dessas brutais separações.
Mais tarde, penso que de uma forma perfeitamente natural, com a maternidade, apreendi o lado absurdo da dicotomia vida/morte e recreei em mim o arrepiante espectro da morte. Digo recreei, porque embora num formato inconsciente, ele esteve presente em toda a minha adolescência, com medos e sustos de guerra que não eram verdadeiramente meus.
A morte não era entendimento, era medo e tinha essa mesma cor.
Hoje , Joana, tal como tu, tenho medo. Continuo a ter medo, mas posso relativizá-lo, porque deixou de ser absurdo. Vejo a real dicotomia da vida, Nascer/Morrer e percebo que há um propósito neste percurso, que pode eventualmente ser muito curto, ou não, mas que será sempre cumprido. Cabe a cada um de nós a responsabilidade de o aceitar e cumprir o melhor possível. E é nesta clarividência que se esvai o medo e permanece a luz.


maria



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quarta-feira, 2 de junho de 2010

EU



Estou em estado de graça.
Há muito que não sentia esta sensação de liberdade.
Parece que desliguei da ficha e não há mais nada, a não ser EU.
Há pouco mesmo, pensei no meu coração, parei até, para o ouvir. Nenhum sobressalto.
Cuidei que o pensamento se armasse em guerreiro e fosse desenfreado içar bandeiras de alerta, a desprazer, mas nem isso.
Reconheço esta paz de outros lugares, tão longínquos, sem tempo, que não lhe posso chamar minha. Mas sabe-me bem. É bom rever este EU. Pensei que o tinha perdido nas preocupações e nos medos da vida. Pensei que o tinha prendido a outro e a outros que agora sou eu, a vivificar.
Limito muito o meu circulo de prazer. Mais um pouco e é a vontade de me saber. Mais um pouco e é a rotina do ser...
Sustenho-me.
Por força das circunstâncias, obrigo-me a desligar o telemóvel. Os deuses estão por mim.
A Lua, gorda de luz , enfeitiça a noite e faz-me ébria de encantamentos. Alargo o meu circulo de prazer sem qualquer risco de o perder.
Nós somos muito mais do que nos sabem. Viajamos em nós, desacorrentados do bem ou do mal, conforme nossa vontade e entrega, se assim nos aprouver. E não haverá quem nos impeça...
Esta é a minha noite uterina, há tanto esquecida.

maria





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segunda-feira, 17 de maio de 2010

NÃO ME PERGUNTEM


Não me perguntem se dói
olhar teus olhos assim, vazios de luz e de amor
nos cantos sombrios da vida.

Não me perguntem se dói
saber teus passos perdidos, atrás do nada querido
qu' ora anima o teu andar.

Não me perguntem se dói
sentir distância de ti, no beijo que me rouba
a paz de te querer.

Não me perguntem se dói
abrir regaço d'amores, no simulado breu
de tão fugente verdade.

Porque eu não quero dizer, a dor que é
saber-te, a ti, meu bem querer
na solidão deste sofrer...

maria





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domingo, 11 de abril de 2010

NINGUÈM ME VENHA DAR VIDA ...

Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim,
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, porque chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.


Cecília Meireles





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sexta-feira, 2 de abril de 2010

SAUDADE

Eu não sei se é saudade , este aperto que me agonia.
Penso em ti, porque te gosto, e sinto dor de te pensar.
Estremeço a tua ausência e não a quero acreditar.
Fecho os olhos, para não ver, mas a dor não alivia.
Busco amores qu'então me deste, ficas minha companhia.
Abro os olhos, quero ver-te, cega presto o meu olhar.
Já não sei se me aquiete e afrouxe o meu cuidar,
ou se alongue a minha dor, do calvário à ironia
de saber que vou morrendo, amiude, devagar,
num sonho meu de ternura, como gosto de lhe chamar...


Saudades do meu irmão Rui

maria




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