domingo, 15 de julho de 2012

Para ti Filho, um poema


"Não tenhas medo, ouve
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado,
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz
E pode acontecer que te dê paz"

Miguel Torga



terça-feira, 10 de julho de 2012

O Marido das Outras





Quem de nós, mulheres, nunca elogiou os Maridos das Outras?
 Mais do que sabemos das outras,  sabemos e " invejamos " estes homens pelo que acreditamos que eles são.
Não que alguém nos diga ou se veja, mas porque então, o nosso marido não o é.
Não o é mas deveria ser, porque alguém o é. E esse alguém só pode ser... o Marido das Outras.
Atribuímos aos maridos das outras, qualidades e valores concretos que apreciamos, e envolvemos no jogo o nosso marido, depreciando-o. Mais ainda, reivindicamos no confronto, justiças equitativas  entre nós, as Amigas.
De argumentos na ponta da língua às vezes pouco consistentes, pomos em evidência a mentirinha provocatória, a zelar pela nossa zona de conforto. Criamos a necessidade de uma regra que estabeleça a igualdade na distribuição do ideal.
E este sentimentozinho de injustiça, faz-nos mal, apelamos aos "méritos" do outro enroladas na cobiça alheia, a fazer doer.   
 Mas afinal, que fantástico é esse que procuramos meritóriamente no espelho das nossas amigas, quando toda a gente sabe que os Homens são...tudo, menos a Perfeição.
 


maria


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terça-feira, 14 de setembro de 2010

SEDE


Esta forma compulsória de arrumar os pensamentos em palavras escritas, já me vem de longe e chega a ser uma terapia.
Quando os canais mais óbvios da comunicação se escoam na simples presença do ser impregnada  de fluidos mórbidos e viciados, a nossa vidinha torna-se sensaborona e senescente.

Os meus escritos diários (não tão diários assim), foram folhas soltas de cadernos e sebentas, perdidas nas gavetas dos cacos, que a faxina imposta, resolvia sempre triturar.
Lembro que em tempos improvisei um diário sentimentalão, onde escrevi na primeira folha:
" FICA DECRETADO QUE A MAIOR DOR, FOI E SERÁ SEMPRE O NÃO PODER DAR-SE AMOR A QUEM SE AMA E SABER QUE É A ÁGUA QUE DÁ À PLANTA O MILAGRE DA FLOR" .
Este é o artigo 8º dos Estatutos do Homem, do poeta Thiago de Mello e  há muito, tomei como minha esta afirmação num inquietante inconformismo.
Reescrevo-a hoje aqui, de uma forma mais fleumática, a destemperar essa potestade amorosa que anima o nosso enamoramento e nos torna quase, quase, seres alados de flechas apontadas.
E o problema parece mesmo ser esse, ou a solução como se queira, o alvo das flechas, ou a nossa pontaria!...
Prefiro então a última imagem da frase, onde a fluidez se transforma em vida.
E essa agilidade passa pela simplicidade do ser e do saber e não por construções muito elaboradas no palco da vida, ou  cenários dissimulados que giram em várias direcções, segundo a afinidade dos espectadores. Esta pode ser  uma tentativa de cativar pela habilidade, mas o esforço assim, será  inglório e teremos seca pela certa. 
 Pior, o deserto mais cedo ou mais tarde, manifestar-se-à, estender-se-à em todas as direcções e no delírio sequioso, desconstruíremos involuntariamente a nossa preciosa criação . Um dia cai a máscara e fica irremediavelmente o Ser, mas enquanto isso, ninguém é verdade.
Apenas sentimos, desejamos e vamos amando...?
Amamos à nossa medida, secamos à nossa medida, no desamor das ondas do nosso mar  mas utilizamos habilmente o megafone na praça pública, na súplica da chuva.


maria

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Foi Bom!

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http://www.youtube.com/watch?v=Ki9xcDs9jRk&feature=related


Eu , o Leonard Cohen e a Ditinha, estivemos juntos.
Mas não fomos só nós, esteve também a paixão que temos pela música, a deliciosa cumplicidade naquilo que a vida tem de melhor, o riso de nós, que em tantos momentos do dia soltámos, a forma airosa como deixámos entrar esses momentos na reunião, a graciosidade que julgavamos ter perdido e a leviandade de nos sentirmos rejuvenescer...
E o Cohen, pobre Cohen, nem deu por nada, porque nós crisálidas, rompemos a casca e transformámo-nos em borboletas muito antes de ver o plateau. E fomos assim durante três horas e tal, nós e ele e ele e nós, numa assunção de sons a exorcizar...
Foi bom.


maria

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DITINHA



A Ditinha é uma amiga do peito que o tempo foi fazendo crescer no meu coração e que tem a ventura de poder sempre ver o sol e a lua de esconde-esconde, sobre o mar.
Fui visitá-la. E pasme-se, porque em dois dias energizei!!
( entenda-se revigorei, fortaleci, para não confundir com as teorias holisticas, agora tão em moda, que nos ensinam a ficar zen com um simples olhar ou coisa que lhe valha).
Sabem aqueles momentos da nossa vida, que não são bons nem maus, antes pelo contrário?
Pois estava eu assim, nesse estado de letargia, entre o esforço contínuo do meu lado direito do cérebro, que graciosamente cria e recria a bom passo, o prazer de estar vivo, e a atonia da vida, que não gira um só grau na sua órbita real, quando a Ditinha me fez o convite.
E aqui, eu podia já dizer, que fui ao Paraíso e voltei, e é claro que ninguém iria acreditar. Mas é-me igual, porque eu gosto de hipérboles, quando elas são tão reais nas minhas sensações, que o relato se torna indizível.
Quem me conhece, sabe do fascínio que tenho por relógios de pulso ou de parede como adorno, mas detesto aquela função de controle que faz de nós bichinhos de hábitos criados por ponteiros que giram rotineiramente entre o 1 e o 12.
Entre alguns relógios que são verdadeiras obras de arte, a minha amiga tem um, que seria simplesmente vulgar, não fora o tamanho, aparentado com o da torre de S. Tiago, da minha terra. Impossível não reparar.
E aconteceu.
Sei que a minha amiga também usa e abusa desses adornos, desconhecia contudo, que ela utiliza o mesmo truque que eu, para os desfuncionar.
Paramos os ponteiros do relógio ! Melhor ainda, fazemo-los desaparecer...
Isto pode parecer um lugar comum, tendo em conta o efeito castrador obtido e o gozo excessivo que este simples gesto lhe possa adicionar, mas é diverso.
Regressada agora, sei que os passes de magia activados, foram efémeros naquele objecto e revivo cada momento, no tic-tac prazenteiro que então calei.
Este "rewind" gostoso, conta agora, sem números, as horas divertidas noite fora no arraial, o bate-bate das ondas nos nossos corpos dourados pelo sol, completamente esquecidos nas conversas que o tempo fora arrumando nas prateleiras, as nuvens batidas em castelo, forjadas sobre nós, espraiadas na areia quente dos nossos segredos, a lua roubada a metade, tão cálida noite dentro, que nem ousava bocejar as nossas cumplicidades...
E a Ditinha é tudo isto... e ainda o deslumbre da imensidão daquele mar tranquilo a perder-se no horizonte, a flor de hibisco canário arraiada a fogo, que manhã cedo, no orvalho, se abria em cálice a saudar-nos, o cheiro do alecrim florido de azul, a relva fresca, que acariciava e nos humedecia os pés descalços, nas manhãs lindas da sua generosidade.
A minha amiga é esta bênção que eu tanto prezo e me faz bem.


maria



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domingo, 25 de julho de 2010

Portanto se alguém está em Cristo, é nova criação...

Se eu quisesse construir uma fórmula mágica para a Felicidade, eu faria parar o mundo numa manhã de domingo, como a de hoje.
O ser humano é tão sedento de Amor, que vive num constante esforço de procuras pessoais numa universalidade extremamente complexa, por crer na sua intangibilidade.
E na verdade nós somos esse grande tesouro. Cada um de nós é a personificação desse novo mandamento que Jesus trouxe à terra:
" Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e ao teu próximo como a ti mesmo". Esta é a nossa essência.
Mas perdemo-la nos caminhos tortuosos da vida, feitos mágoa, por nos afastarmos desta identificação com a própria vida de Jesus. Esquecemo-nos que o amor de Deus é incondicional ( mesmo na dor) e desacreditamos completamente no amor fraternal, quando reinventamos uma forma de vida ajustada às nossas vontades mais primárias, autoproclamando os nossos direitos egocêntricos de cidadão universal.
Construímos a insatisfação e alimentamo-la em vez de a banirmos das nossas vidas.
Se fecharmos os olhos um pouquinho e no silêncio pudermos ouvir o que o nosso coração nos pede, ouviremos tão somente a palavra Amor. E baralham-se-nos os sentidos por termos já experimentado tantos amores e não estarmos saciados. Porque não há volta a dar... nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus e é com Ele que temos de caminhar.
A escolha não é fácil, é uma tomada de decisão muito solitária, que mexe com toda a nossa envolvência e nos expõe. Mas tem uma coisa maravilhosa! tira-nos daquele estado de afasia, onde o entendimento atrapalha a linguagem a justificar-nos, porque o Espírito age por nós manifestando-se.
E cada passo, mesmo o mais pequeno que dermos na Sua direcção, é como uma barrela que fazemos à nossa alma. E este branquear, esta lavagem de espírito é um renascer contínuo para a caminhada eterna.



maria

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sábado, 24 de julho de 2010

O MEU PRÍNCIPE ENCANTADO !

Ah! como eram doces as tardes de Agosto da minha meninice.
Quando a morna sesta da tarde, tirava de mim os olhos, já meus passos iam longe, por entre as flores silvestres, nos carreiros de urze e ainda rosmanos, um pé à frente e outro atrás e o coração leve como um pássaro longe da gaiola.
Que me chamassem ou me saudassem, eu nem os ouviria !
Equilibrava-me nos pequenos muros , caminhando sobre eles como vagão sobre carris. Assim ficava mais fácil ao teu olhar, pensava.
Tu eras o meu norte. Caminhava para ti como quem é muito esperada e às vezes a sorte dava-me a mão. Mas outras, tantas, o sol abrasava o meu rosto até à compaixão e tu não vinhas...
Sentava-me então junto ao ribeiro e sonhava-te...poderia dizer-te, quantas borboletas brancas te anunciaram, quantos pintassilgos alegres ali vieram beber, quantas margaridas singelas desfolhei por ti... mas a tarde corria naquelas águas límpidas de antão e levava os meus quereres.
Desesperava-me, lá longe, o som do campanário por tu tardares, mas o desejo de te ver arrastava as horas até ao meu limite. Não raro, a brisa calma do entardecer chegava bem antes de ti e esmurecia o meu fulgor. A sesta durava até às Trindades e era tempo de eu voltar...
Dizias às vezes por graça:
" - Vai, antes que te transformes em abóbora!"
E os dois ríamos felizes, numa obediência inquestionável e gratuita.


maria


imagem: ( reprodução ) Psique entrando no jardim de Cupido-John W. Watherhouse


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