quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Canção Final

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Na impossibilidade de transcrever todo o poema "SENHORA DA NOITE "o qual me fascina do começo ao fim, deixo aqui este cântico, que aparece no final do livro, com uma sonorização tão melódica, tão ternurenta, num balanço tão cuidado, que o próprio leitor embala o sono da noite, coitadinha!...

Aí vem a noite velhinha,
Erma sombra entrevadinha,
Mal pode andar, de cansada..

Já o dia se avizinha...

E noite, triste e sozinha,
Tão pálida e fatigada,
Da sua longa jornada,
Deita-se e dorme.
A alvorada
É o sono bom da noitinha...

E a noite dorme quentinha,
Na cama que lhe foi dada...

Dorme, dorme, sossegada,
Noite de Deus, sombra minha,
Que o teu sono é madrugada...


"Senhora da Noite"......Teixeira de Pascoaes
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sábado, 23 de janeiro de 2010

ENQUANTO...


[ No meu 11º ano, o professor de filosofia pediu aos alunos que escrevessem uma frase que melhor definisse a palavra "morte". A resposta considerada mais básica e mais redutora, foi a de um colega que escreveu: "Morte é um buraco tamanho que nos engole, depois de engolir os nossos entes mais queridos.]
... ...

O funeral do meu irmão trouxe-me à casa de meus pais, na Covilhã, onde já estou há sensivelmente 20 dias.
Esquecida da prática dos meus rituais diários, vagueio um pouco no tempo, longe de mim, como se outra eu fosse.
O meu espaço, são estas paredes cruzadas ao longo de um enorme corredor, que sai mundo fora por uma varanda sobranceira à cidade.
Já vi beleza neste lugar. Já enchi meus olhos de luares serenos e pérolas cintilantes que se perdiam lá longe na linha ténue do horizonte. E madruguei auroras lívidas de sono, num despertar magnífico de fogo e de luz, que emergiam das sombras para se fazerem dia!
Hoje nem sei. Encolho os ombros num gesto de indiferença ao que provavelmente continua a ser belo.
Os dias seguem-se iguais num rosário de afazeres que nos passam pela ponta dos dedos, completamente desvirtuados de vontades.
É Janeiro lá fora e Inverno dentro de mim. A diferença é nenhuma. A tacanhez que se me inflige é a somatização disso mesmo; Geada que tolhe os sentidos.
Espera-se inerte que o telefone toque, para saber dos que estão longe. Suspendem-se amores sofridos, para mais tarde. Aceita-se a dolência em jeito de afago como terapia de colo, a superar...
Curioso que nada tem hora, neste "deixar andar as coisas", mas aflora às vezes, a urgência de ver o tempo passar depressa, como quem está em esforço ou projecta a fuga...
Esta intermitência entre o torpor das vontades e a consciência disso mesmo, é por si só fleumática, consciente ou não, é quase uma exigência da alma na sua fluidez mais genuina.
E este mal estar individual, tão nosso, quanto o deixarmos apropriar, pela força da melancolia da perda, ou pelo arrastar dos suspiros que teimam em ficar, é sem dúvida o grande buraco que nos engole.





maria
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

LÁGRIMAS


Seguro em meus olhos as lágrimas tristes deste adeus tão breve.
Quisera eu prender-te aqui, num sopro de vida que já não era.
Quisera ainda assim, aliviar o fardo absurdo que te vergava, mas o teu sorriso de menino teimoso era bem mais forte.
A tua verdade embrulhava a vida num passo tão firme e convicente , que o mundo girava à tua medida e surpreendias todos...
No teu jogo, não havia vencidos. Tu eras o vencedor que graciosamente abdicava do prémio.
E parecias feliz, montanha acima, qual sísifo que carrega não a sua, mas as rochas de todos, numa crucifixão abnegada e sadia própria a qualquer mortal.
Magoava-me essa tua forma solitária e gratuita de pegares no mundo, por julgar que desafiavas os limites da sensatez sem te dares conta...
Mas a tua caminhada não tinha paragens, por se fazer tarde. Sei-o agora. E sei também que choraste por todos, nos martírios que não conseguimos vencer; vi essa culpa moída nos teus olhos crepitar em fogo ardente.
E nada mais foi brando no teu sentir. Nem o tempo, que sempre entretinha a tua esperança, quis mais ser compassivo.
Ou ... talvez o faz de conta tivesse mesmo de chegar ao fim.
Os teus silêncios, esses, nunca ninguém saberá se eram divinos ou se eram terríveis, porque tu partiste com um ar muito sereno, mas viveste completamente abandonado de ti.




"Memórias do meu irmão RUI"

maria
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