domingo, 27 de junho de 2010

A NOSSA TITI


- Titi, conte o conto das calcinhas vermelhas...
- Está bem. Mas queres que to conte ou que to diga???
- Que mo diga...
- Então? mas... queres que to diga... ou que to... conte???
E os olhos iam-se- lhe fechando de cansaço, num abandono tão profuso de si mesma, que rapidamente caía num sono solto. Retirava então as minhas pequenas mãos de dentro dos lençóis, e abanava-lhe violentamente os ombros.
- Titi!! Está a dormir...
- Na aõ oo... e arrastava a voz, entreabrindo os olhos num esforço tremendo para continuar a história.
- Vá... diz lá. Queres que to diga... ou que to conte???
- Que mo conte, já disse...
E o conto era assim cadenciado, entre a minha energia que dificilmente abrandava com o cair da noite e a sua fadiga, acumulada na dureza dos dias, naturalmente exposta e pronta a ser aliviada no seu ritmo mais merecido.
Creio mesmo que nunca concluímos esta história, porque apenas me recordo do começo. Era uma vez...
E até onde vai a minha lembrança, perderam-se as palavras que poderiam ter sido ditas. Ficaram por escrever, histórias intensas de vidas simples, fadadas na memória dos tempos que se puderam viver.
E o resto... o que me apetece dizer e não digo, porque não sei... murmuro a Deus numa prece: - Que hoje, no seu 80º aniversário, a sua luz celestial brilhe um pouquinho no coração de cada um de nós, para matarmos saudades.


maria


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