quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

NINHO VAZIO em dia de aniversário












O sentimento do dever cumprido, a redução, ou a aparente redução das responsabilidades poderiam ser razões suficientes ,na satisfação pessoal ou conjugal, quando os nossos filhos se autonomizam e saem de casa.
Ao invés, e por muito equilibradas que nos julguemos, perdemos completamente o chão. Ficamos desesperadamente inadequadas ao espaço físico e psicológico que sobra.
A perda tem uma dimensão tão gigantesca, que nos transformamos na própria " Inutilidade". Isso mesmo. Parece que se perde toda a razão de viver. Onde fica o meu papel de Mãe? Que faço agora sem essa função? ou mais dramático ainda, quem sou eu se já não sou Mãe?
E o silêncio, a casa vazia, a solidão, a tristeza, cria este jogo aterrador nas nossas mentes. E involuntariamente, nós vamos jogando...
Numa primeira fase , até sabemos que a vida tem estas transformações, que apesar de os filhos estarem longe dos nossos carinhos diários, seremos sempre os pais deles, que devem seguir os sonhos deles, formar a sua identidade fora do núcleo paternal, blá blá blá, blá blá blá... nada que antes não parecesse previsível e até mesmo pacífico.
Mas o vazio adensa-se no nosso subconsciente, e o jogo torna-se perigoso: os quartos são arrumos de ninguém, as camas, são espaços sem dono, as luzes, apagam -se de ausências, os sons que não se ouvem, são tristes desamparos e até os gritos que repreendíamos chegam a ser contrições da nossa alma.
E quer queiramos, quer não, por onde quer que tentemos dispersar a nossa atenção, vagueia sempre, este espectro ambulante e perturbador, da melancolia, da solidão, a chamar por nós. E mais funesto ainda, nós a chamar por ele, porque a simbiose é perfeita. Há um gosto doentio pela saudade, que dá razão ao abandono.
Não se previu o retorno a dois.
Só duas cadeiras ocupadas, é mesa que desaprendeu.
O diálogo perdeu o propósito.
Agora, ficou mais difícil " Olhar juntos na mesma direcção", porque se distanciou o modelo que desenhou no tempo, as paralelas do nosso olhar.
E o funesto sentimento, arrasta-se impiedoso, num obstinado jogo de forças, que o tempo há-de saber parar...







maria

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A FONTE DOS AMORES




As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram
O nome lhe puseram, que inda dura
Dos amores de Inês, que ali passaram
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores

Lusíadas, canto III

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

E as lágrimas de Inês calaram-se; Mas as Ninfas choraram até ao último suspiro de Pedro.
O Mondego abriu os braços à exaustão.
Santa Clara carpiu memórias de amor e de paixão e enlutou-se de dor.
Os encantos de Pedro foram cruelmente arrancados ao seu pecado, e a loucura tomou lugar.
Os doces olhos de Inês, mergulhavam-no ainda, na mais sublime forma do ser, o Amor, mas os momentos de transcendência passional que experimentaram, eram já mágoas de raiva e sede de vingança, que fervilhavam nas veias.
Suspensa a ira nas promessas de amor que jurou cumprir, o infante, pai e viúvo de amores sofridos, espera no tempo a coroação da sua "Rainha".
As gentes condoeram-se de tamanha pena, e sublimaram-na em cumplicidade penitencial, naquele que haveria de ser rei..
A fonte dos amores ainda chorava.
O sangue que Inês derramou no Mondego, corria ainda, leito fora.
O Justiceiro, feito rei, vingou a Morte, reacendeu a Paixão, coroou o Amor, amortalhou-O em Alcobaça, e diz a lenda que o povo veio beijar a mão daquela, que foi a rainha mais amada em Portugal.


maria


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

TU SABES

Amiga, que fogo tão rubro te tolda a razão.
Acaso esse ardor te crispa o olhar?
Não vês que pulas a cerca da cegueira em vão?
Não sentes o peito dorido e o folgo a cobrar?
De nada te serve pensares tão alto.
Nas ervas daninhas, só crescem penúrias,
folículos sem graça pisados no asfalto.
P'ra quê cingires-te de fúrias,
se a festa elege a rainha!
Firma o teu canto trinado.
Abraça o corpo que se aninha.
E impera no teu reinado!!


maria


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"Balises"



Para quem como eu, gosta da língua francesa, a leveza deste poema.
A génese naif.



Je prendrai dans ma main gauche
Une poignée de mer
Et dans la main droite
Une poignée de terre,
Puis je joindrai mes deux mains
Comme pour une prière
Et de cette poignée de boue
Je lancerai dans le ciel
Une planète nouvelle
Vêtue de quatre saisons
Et porvue de gravité
Pour retenir la maison
Que je rêve d'habiter.
Une ville. Un réverbère.
Un lac. Un poisson rouge.
Un arbre et à peine
Un oiseau

...

Gilles Vignaux

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

SONHO

Eu tive um sonho que logrou
E se fez rio

Correu, galgou margens, beijou estrelas
E se fez mar

Calmou raízes d'sperança nas verdes águas
E amou

Tocou baladas suaves, contou luas
E gestou

Brincou d'esconde-esconde, quis ser grande
E se forjou

Foi trovão d'alto mar, fúria d'onda em rocha dura
E encabruou

Acordou manhãs brancas d'orvalho a rarear
E corou

Pintou no azul arcos de todas as cores
E bailou

Foi laranja, cor de fogo, pé descalço sobre brasa
E esqueceu

Madurou rebentos sucosos, corais finos a conquistar
E cedeu

Chorou quartos minguantes, machucou barcos de papel
E penou

Foi espuma em cima d'água, alga de fundo de mar
E vigorou

Mirou espelhos d'outono, quebrantou olhares
E aceitou



maria




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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O CHÁ DAS 5


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Aqui na Covilhã, o chá das 5 , continua ainda a ser um hábito burguês, tão apreciado como em Inglaterra.
Aliás, nós portugueses, orgulhamo-nos de ter sido a nossa princesa D. Catarina de Bragança, casada com Carlos II de Inglaterra, que levou este hábito para a corte inglesa.
Reza a história, que a nossa princesa seguiu numa armada para Inglaterra, para se cumprirem os votos matrimoniais, onde chegou a 14 de maio de 1662. Sentindo-se indisposta, dizem até que mal da garganta, logo aprontaram todos os cuidados para a melhorarem, mas a nossa princesinha, pediu humildemente um pouco de CHÁ, e este pedido intrigou os estrangeiros que a serviam por não saberem que bebida seria aquela...tanto mais que a princesa não sabia muito bem falar inglês. E é nesta sequência, que a famosa bebida entra nos hábitos da corte inglesa.
De bons gostos e bons tratos esta princesa, não? e em abono da verdade, com excelente formação a outros níveis, pois a vida na corte inglesa não lhe foi nada facilitada, e ela foi uma grande mulher... ... ...

Pois nestes dias que tenho passado aqui , em casa de meus pais, e fazendo jus, a esta tradição de família, eu e a minha mãe, chegada a hora, " tea time ", honramos o requintado gosto do nosso precioso chá.
Mas ontem, o nosso chá das 5, foi precisamente para 4, pois tivemos a simpática visita de duas primas (minhas), com as quais já não privava há muito.
O cerimonial do "chá", não pôde ser muito alargado, porque anoitece muito cedo e os afazeres de cada um, são relógios sonoros, que batem horas. Mas a tarde foi muito agradável.
A conversa não teve tempo de chegar às memórias mais remotas mas relembrou momentos de meninice irreverentes e ingénuos. Os laços de família eram tão fortes, que teimosamente nos aproximavam no espaço e na cumplicidade e copularam depois em nós, apesar de tantos
entremeios, este sentimento sadio de nos querermos bem.
O chá com bolinhos foi extremamente delicioso e brincalhão, e penso muito honestamente, que tanto eu como a minha mãe, já merecíamos um pouquinho desta boa disposição, timidamente conseguida, em momentos tão pesarosos como os que temos vivido.
Eu pessoalmente, fui buscar os meus bons momentos de solteira, quando em casa de meus pais, convidava as minhas amigas, e como boa anfitriã as presenteava com os meus " dotes " de doceira a acompanhar o tão aromatizado chá GORREANA.
Confesso que o meu casamento me levou um pouco à perda destes prazeres individuais, feitos de hábitos de infância e adolescência, que me fazem sentir bem.
Mas quando o tempo e as circunstâncias nos afastam dos momentos bons que gostamos de viver ou reviver, não é difícil intensificarmos estes desejados flashes que acontecem nas nossas vidas.
E foi o que eu fiz.
O nosso cházinho das 4 foi mesmo muito bom !!!


maria

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

PORT AU PRINCE


12 janeiro 2010
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Do nada,
do silêncio que se ouve quando a ordem das coisas parece ser vida,
surge o grito.
A terra esventra-se num ímpeto de fúria e de soberba,
e a cidade rasteira-se.
Desmorona-se o baralho de cartas , que habilmente e com a fragilidade que se impõe, se ergueu em pirâmide, sobre o fio da navalha.
E surge o CAOS.
Tanta alma humana esmagada, esfacelada, dilacerada...
Os vivos que se erguem, caminham como loucos, no susto da morte, para nenhures.
Não há razão que se ajeite.
Não há olhos que se fechem à crueldade geo física
27 dias depois, continuam nos nossos ouvidos, os gemidos incessantes de vidas que se esvaem lentamente.
Ficou um lugar sem portas, completamente escancarado à mendicidade alheia, e vimos que o resto do mundo foi pronto em generosidades.
Mas a perda, é dor no âmago. Está onde a atenção humana não chega.
E cá longe, no conforto deste meu canto onde escrevo, ela incomoda tanto quanto eu não queria,
porque esta dor não se cura.
Eu sei que ela mata devagarinho...


maria


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domingo, 7 de fevereiro de 2010

DESASSOSSEGO

Há dias que nada me trazem de ti.
Crescem momentos ébrios de tédio,
futilmente perdidos numa solidão sem dó.
Que dor é essa que te amarga o riso?
Que sede mereces nas margens do rio?
Não ouves teu nome que clamo do alto?
Larga a liteira e trepa a montanha.
Deixa que a brisa te sangre as escaras...
Banha teu corpo nas fontes de orvalho,
e flui...
A noite não deve chegar tão cedo.
Ainda é tempo de exorcizar os medos.
Porque o jogo tem sempre duas faces,
a da sedução e a da condenação.
Vem.
Não esbarres teu rosto em paredes de vidro.



maria

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Morreu Rosa Lobato Faria ... que descanse em paz

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Porque admiro muito a sua escrita e me sinto triste com esta partida, quero postar aqui, em sinal de luto, as palavras sublimes de:



















QUIMERA


Eu quis um violino no telhado

E uma arara exótica no banho.

Eu quis uma toalha de brocado

E um pavão real do meu tamanho.

Eu quis todos os cheiros do pecado

E toda a santidade que não tenho.

Eu quis uma pintura aos pés da cama

Infinita de azul e perspectiva.

Eu quis ouvir as ´Cármina Burana

Na hora da orgia prometida.

Eu quis uma opulência de sultana

E a miséria amarga da mendiga.

Eu quis um vinho feito de medronho

De veneno, de beijos, de suspiros

Eu quis a morte de viver de um sonho

Eu quis a sorte de morrer de um tiro.

Eu quis chorar por ti durante o sono

Eu quis ao acordar fugir contigo.

Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.

Por isso fiquei só, com o meu corpo.


"Rosa Lobato Faria"


Ad eternum com Cármina Burana e" Oh Fortuna"






maria

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